sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Encontro...

Um beijo
Um encontro
Uma estrela
Mãos que se unem
Corações que se fundem...

A fluidez dos gestos
ante a mudez das palavras...

Para quê palavras
Ante a força de gostar...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Desencontro...

Palavras que enchem os sons de silêncio
Sons que nos fazem surdos
E nos ecoam cá dentro, esmagam, retinem
Consomem...
Palavras podres de repetidas
e que se repetem sem que ninguém as diga
Uma vez ditas as palavras são gumes afiados para sempre
que nos rasgam eternamente
Nem um beijo as apaga
Nenhum abraço as corrige...

A vida é feita do vazio carregado nas palavras
Do cinzento que elas exprimem
E do vermelho com que por vezes nos tingem...


(Eu queria ouvir o som das estrelas
mas ouço o silêncio carregado no ruído das palavras)

sábado, 27 de outubro de 2007

Epitáfio

Há um mês que não escrevo no blog...
Subnutrido, é capaz de vir a morrer em breve!

A vida prática traz-nos para longe de coisas tão simples e... agora não ando nem com tempo nem inspiração para aqui escrever... Sinto-me feliz com a vida e quando assim é prefiro contemplá-la do que reflectir sobre ela...

Por isso talvez o blog morra aqui... enfim... pode ser que não... quando os trabalhos começarem a apertar talvez volte "aquilo" que nunca soube definir o que é, mas que me faz ter vontade de escrever ou de pensar naquilo que escrevi ou que poderia ter escrito, ou naquilo que deixei de fazer enquanto escrevi e pensei.

Não sei se alguém ainda se dá ao trabalho de vir aqui após um mês de pausa, mas se sim, sois boas almas e todo o Esplendor da Eternidade Vos Aguarda quando esticardes o pernil!!
Muito obrigada... Sei que não sou importante mas às vezes regozijo-me com essa ilusão.

Ámen...

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Tudo é misterioso..


Tudo é misterioso
E eu não sou nada.

As verdades e as mentiras
Nada têm de dogmático:
Já viste como trocam de pele,
No silêncio,
Só para nos contradizer?

E eu acredito em tudo
Com uma descrença e desprendimento absolutos.
Reduzo-me à minha ignorância
E teimo como quem brinca ou mente.

A lógica é frágil
E a razão caminha segura
Em pontes sobre a loucura.

Tudo é circular e não há limites
Entre sensatez e disparate.

E assim, de tanto andar à roda
Para ver se encontro o que não acho,
Vejo a vida em círculos e é só isso que sei.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Já chega...












Já chega

Vamos começar do zero, Tomás.

A nossa casa brilha como uma estrela num céu negro, vazio

À nossa volta já não há ninguém

Somos só nós,

Eu e tu, Tomás.

Abraço a tua fotografia na noite escura

Onde só o nosso lar brilha

E choro

Mas não deixo as lágrimas cair

Para que essa pequena chama não se apague.

Tomás

Fui ontem ver-te

O teu corpo transmudado em flores

Sorria-me, viçoso

E acariciei os teus lábios

Ao tocar ao de leve nas pétalas daquela flor.

A minha única âncora

A este sítio

Onde apenas a nossa casa brilha

É curiosamente aquilo que me faz voar

E desprender o meu pensamento daqui:

O sonho.

Sim,

Só o sonho me mantém presa à terra.

Um dia

Quando o sol corroer de vez a cor da tua fotografia

Tão linda

Tão muda

Tão ausente

Então a luz da nossa casa

Tremeluzindo

Apagar-se-á.

Nesta terra de almas penadas

Não se verá vivalma.

Depois, não sei o que acontece;

Mas a minha fé diz-me que nos reencontraremos

E abraço o teu corpo morno

As flores morrem

E desprendem-se da tua pele macia

E tu renasces-me nos braços

Há muitas estrelas a brilhar

Recomeçamos a vida do zero

E a morte,

Enfadada com a nossa vivacidade

Vai adormecer,

E nada entre nós vai voltar a morrer.


Mas a tua fotografia continua garrida

E aperto-a contra o peito

Na esperança de que renasças do chão,
Como um rebento do meu amor.

A outra vida que deus promete

Fica longe

E foi nesta que os nossos passos deixaram rasto

E sou demasiado fraca para abandonar as memórias

Que são aquilo de que me alimento.



4 de Fevereiro de 2004

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Solidão II

Por vezes aterro numa outra dimensão. Vejo uma mulher ressequida, magra, de aspecto duro. Essa mulher lembra-me uma jarra de barro tosca, quebrada na borda e já a perder a tinta.
Cabelos desalinhados, olhos vazios e tristes, como se lhe tivessem levado parte da alma, cigarro na mão, escape do coração cinzento.
Uma mulher a tentar encontrar nas palavras, desesperadamente, o sentido que lhe haviam garantido que a vida tinha, afinal.
Mas por mais letras que juntasse nenhum sentido emergia.

Sentia-se só… tinha acreditado mais nas palavras do que nas gentes, mas as palavras devolviam-lhe a solidão e a desconexão como um espelho.

Solidão

Solidão.
A solidão é o que nos acompanha em todos os momentos da nossa vida… Quer estejamos sós ou entre amigos. Nunca somos capazes de sentir o que os outros sentem, por mais que os toquemos ou os beijemos, por mais que os amemos, nunca são uma parte de nós, nunca vemos o mundo com os seus olhos nem tocamos na vida com os seus dedos.
“Nunca julgue seu vizinho até andar duas luas nos mocassins dele” – Provérbio Cheyenne. No entanto, por mais que andemos com os mocassins do vizinho, nunca saberemos o que ele sente ao pisar o mundo: provavelmente não calçamos o mesmo número, se calhar temos calos ou ele pode ter os pés inchados. Talvez a sabedoria dos índios tenha falhado neste aspecto.

Irremediavelmente e aterradoramente sós – por mais que usemos mocassins emprestados – esta é a condição humana.