sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Quando choras...

Quando choras
E limpas os olhos
As lágrimas ensopam-te as mãos,
Uma gota de tristeza
Brilha nas tuas mãos.
Só tu podes apagá-la.

Mas se insistes em chorar,
Já não são as lágrimas
Que pingam dos teus olhos para as tuas mãos,
Mas é a vida que te escorre entre os dedos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

...












A verdade última
É que não existe verdade nenhuma.
Tudo é acaso
E o acaso não tem razão.

O instinto é que nos guia
Até ao velo d’ouro.
A razão é como
Um vento forte que nos afasta
Das rotas da felicidade,
E é como um mar
Que nos engole
E afoga em angústia.

O instinto é a força interior
Que descobre o céu dos nossos sentimentos
Quando chove.
O instinto sopra as nuvens para muito longe.
Depois o céu fica azul
E a felicidade
Já pode andar de mão dada connosco,
Porque pode esticar o seu braço dourado
Porque já não há nuvens
E porque a felicidade é o Sol
E o sol só não existe
Quando os homens
Tapam a vida com nuvens
Feias e tristes
E perdem o instinto de as soprar.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Os jogos de sombras...




Os jogos de sombras nas paredes do quarto
Morreram
Quando a luz crua
Invadiu clandestinamente
O nosso templo antigo.

A lanterna com que desenhávamos
Círculos vivos no tecto de gesso
Desgastou-se com a perda de ânimo.
Alguém perdia a magia.
Alguém crescia.

As sombras como o sonho e a lua
Minguaram.
A empregada sacudiu o napron
E tanto a lua como o sonho como as sombras
Rolaram inúteis pelo chão.
Depois passámos,
Altivas e eloquentes
Como papagaios em poleiros
E pisámos, quebrámos
Um passado esquecido.
Inconscientemente
Assassinámos a nossa própria essência.
(Também, para que serve ter uma?)

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Cara Margarida...


Queria deixar aqui no meu blog um profundo agradecimento à Margarida Rebelo Pinto por me ter incentivado, ainda que de forma totalmente involuntária, a criar um blog!
Depois de quase ter caído na tentação (confesso) de enviar um conto para o blog da minha amiga Margarida para que este fosse aí publicado e posteriormente sujeito a uma votação e de seguida hierarquizado consoante o número de votos que obtivesse... Pensei para com os meus botões... Hummmm... naaaaa... não me parece!!!
Se a minha amiga Margarida pode escrever livros (e plagiar-se a si própria, segundo ouvi dizer...), porque é que eu não hei de ter um blog????
Fica aqui portanto o meu profundo agradecimento à camarada Margarida Rebelo Pinto pelo incentivo. Talvez um dia eu evolua até atingir o patamar de perfeição já atingido pela minha amiga!
Guidinha, és a minha heroína!


Soneto desconsertado




Foi como atirar uma pedra a um lago
E não ver absolutamente nada.
Só sentir na pele
O lodo que se despega do lago
E se pega à pele,
À tua pele.
Foi como semear
(e quem semeia
tem esperança
que algo nasça)
E colher a mágoa
Do que não nasceu.
Arrancar, colher um vácuo das entranhas da Terra,
Frustração.
O fruto mais amargo
É o que não chegou a ser provado.

O desconserto é um soneto
Sem cânone
E esta sensação
De ser aleatória
E de ter membros assimétricos.

E eu suporto que os espinhos da rosa
Me rasguem a pele,
Mas se a rosa não tem pétalas
O coração é uma folha amarga
Que cai e se pisa
Porque já não serve para nada.



17.11.2002

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Fora da escala


Uma alucinação
Sem palavras
Uma música
Que dança
Fora da escala
E eu já não pertenço aqui
Pertenço ao ópio
Do êxtase
Ao vácuo absoluto
A uma espécie
De ternura
Sem tacto
A um sorriso sem lábios
Lágrimas de néon.

- A vida enlouquece
A razão obscura
Porque a extravasa
Incomensuravelmente.



Ébria
Ante o absurdo
E absoluto da vida
Eu sou.

domingo, 19 de agosto de 2007

A Morte Equilátera


A beleza discreta
Das coisas quotidianas
Quando a luz do nosso olhar
Incide sobre o seu âmago.

As ruas subitamente tristes
Tão tristes
Se as poças de água
Espelham a nossa cinza
de gelo e monotonia

E um surrealismo baço
E plano
Geometricamente
Compacto
Envolve
A linguagem dos objectos
O acaso propositado
Da sua disposição mágica

E o vazio escorre-nos do peito
Para a calçada que jaz
E tropeçamos nele
No invisível
E intocável
Absurdo
Que domina

O dossier selecto
Sorri
Entredentes
As folhas alinhadas
Qual dentição perfeita

Na rua chove
Uma chuva que vem
De nós
Incapazes
De lágrimas
Os olhos lascados
O céu faz-nos o favor e chora por nós.

O dossier quer
Degolar
Deglutir
Digerir
E a geometria asséptica
Das coisas
São ângulos agudos
Que rasgam
As curvas
Do jogo de sedução.

Os caixões como
As ruas da cidade
São geométricos.
As pessoas são eternos pássaros
Presos num triângulo equilátero
Que enferrujam
Porque choram para dentro.